Este é um tema muito sensível. Mesmo para mim que o estou a escrever e estou habituada a lidar com o assunto, peço que me perdoem pela frontalidade e não me condenem pelos meus sentimentos.
Infelizmente (ou não), em Portugal o processo de adopção é muito burocrático. Mas já se perguntaram porque?!
É burocrático, moroso, doloroso e muitas outras coisas, mas necessário.
Tenho amigas que passaram pelo processo e o que mais me chocou foi o sofrimento que as crianças também passam quando já estão na parte de serem envolvidas no processo.
Mas como desde muito nova sempre fui a orfanatos e instituições de acolhimento conheci muitas histórias..
Já passou até na tv ( julgo que na SIC) há uns anos uma reportagem sobre a verdade da adopção.
Quando consultamos os questionários sobre as expectativas que tem sobre a criança a adoptar é unânime, querem bebés, caucasianos, sem deficiências e sem doenças.
Alguns ainda aceitam crianças em idade pré escolar mas a maioria seguem estes padrões.
Pois... mas caso não saibam a maioria das crianças em orfanatos e centros de acolhimento não são bebés mas sim crianças que já passaram os 7 anos, ou seja já são velhas para serem facilmente adoptadas.
Quando era adolescente tive um amigo num centro de acolhimento e ia visita-lo sempre que podia junto com uma rapariga que foi minha amiga naquele tempo também.
Era tão doloroso. Por ele mas também por aqueles outros rapazes que estavam lá, só recebiam rapazes naquele centro em Campanhã no Porto, alguns eram mais novos do que eu, outros tinham a minha idade... eu devia ter uns 15/16 anos, ali ninguém falava de adopção ou famílias de acolhimento. Dali só haviam duas saídas, ou ficavam a trabalhar na instituição quando atingissem a maioridade ou arranjavam trabalho fora e ficavam por sua conta. Um dos monitores que nos recebia sempre tinha também ele estado em internato lá.
Eramos duas adolescentes, contávamos os trocos para ir da Maia para o Porto de autocarro e duvido que os nossos pais soubessem que íamos para aquele centro de acolhimento, íamos de mãos a abanar. A única coisa que tínhamos era vontade de visitar o nosso amigo e lhe fazer companhia. Sempre fomos super bem recebidas, apesar de sermos miúdas nunca nos negaram visitar o nosso amigo e os outros rapazes, sim, porque depois acabávamos por ter um grupo enorme de rapazes ao pé de nós e sabem o que sentia?! Sentia que eles tinham uma falta de carinho enorme.
Lembro-me de uma das visitas ter sido perto do Natal e de eles todos orgulhosos nos mostraram os trabalhos que fizeram para decorar o salão e à árvore de Natal. A árvore não tinha nenhum presente, mas nós éramos miúdas e também não tínhamos dinheiro para lhes dar.
Esse foi o meu primeiro contacto mais sério e constante com um centro de acolhimento.
Conheci muitos outros agora que se passaram 10 anos desde essa altura.
E também conheci os rejeitados, os que nunca foram adoptados e os que foram devolvidos. Sim, leram bem... devolvidos.
Parece que estou a falar de objectos não é? Acreditem que só de escrever estou com um nó na garganta.
O lado menos bonito da adopção e quando os pais se tornam incompatíveis com a criança.
Os casos são tantos que vocês nem imaginam.
Acontece mais/menos assim, a família passou por todo o processo de adopção com todas aquelas burocracias e ficou declarado que estão aptos a adoptar uma criança. Deve ser uma alegria enorme para essa família saber que finalmente vão ter um filho ou que vão aumentar o nr de filhos... mas... as coisas não são tão cor de rosa como sonharam, a verdade é que uma criança que esteve num centro de acolhimento já trás uma grande bagagem, se foi ali parar não foi de certeza por terem uma vida fácil.
Apesar de precisarem de muito amor, há muita revolta e quanto mais perto estão da adolescência mais capacidade de gestão emocional precisa de ter a família. Pior ainda se a criança já passou por outras casas e não correu bem.
Não podem simplesmente esperar que aquela criança esqueça o passado e finja que nada aconteceu para apreciar as coisas que vocês lhes estão a dar.
Depois da incompatibilidade ou dos problemas que a criança tem/cria aumentarem, acontecem as devoluções e desistências de adopção.
Adoptar um bebé é diferente, mas sabem que tb há bebés devolvidos?!
Acreditem que a verdade por trás da adopção é muito dura.
Ser mãe e pai é um trabalho e um compromisso para a vida. Todos os pais e filhos tem desavenças e incompatibilidade de feitios. Estava bem lixada se a minha mãe me quisesse devolver de cada vez que discutíamos na minha difícil adolescência.
Se vão assumir um compromisso dessa dimensão tenham a noção das proporções dele. Tentem tornar-se primeiro família de acolhimento de algumas crianças e verem como vivem essa experiência, o que sentem, se seriam mesmo capazes de levar isso para a vida.
Nós fomos família de acolhimento de uma menina de 12 anos durante cerca de um ano. Essa história fica para um outro post. Mas não foi fácil.
O lição que tirei dessa experiência é que primeiro não seria capaz de adoptar uma criança. Sim leram bem, poderia acolher centenas se tivesse dinheiro, mas adoptar não. Tenho uma filha que foi gerada dentro de mim, a primeira pergunta que me faço é se amaria um filho adoptivo da mesma forma. A resposta é não.
Atenção que não amar da mesma maneira não significa ausência de amor, mas hoje sei que não seria igual.
Não sei se vos choca ouvir isto de mim, mas estou a ser sincera. Se seria capaz de cuidar e amar outra criança? Claro que sim, mas nunca da mesma forma que amo a minha filha. E é aí mesmo que muitos pais se enganam a si mesmos a achar que seriam capazes de o fazer.
A menina que acolhi foi muito bem tratada ainda hoje em dia recebo elogios pela forma como a tratei e eu não a devolvi, isso NUNCA, aliás, tenho saudades dela e foi uma grande experiência para mim. Mas se foi fácil? Não, não foi.
Alguns de vocês devem saber que tenho o Anly comigo, sou também família de acolhimento dele. Se é fácil? Não, não é, mas eu sou a única esperança dele e farei o possível para lhe garantir um bom futuro.
Se pensarem adoptar tentem passar primeiro pela experiência de serem uma família temporária de acolhimento. Vão fazer uma criança feliz e vão aprender muito.
E incentivo a todos os casais que estejam a ler a sê-lo, podem receber crianças só ao fim de semana para elas não passarem esse tempo todo nos internatos.
Acreditem vão aprender tanto e vão ganhar tanto com isso.
Há uma associação chamada
Mundos de Vida, podem ver também o facebook deles
aqui. Podem consultar o site, além de crianças também existem idosos a precisar do vosso amor.
Devem haver outras pelo país. Se vocês estiverem economicamente e emocionalmente estáveis não deixem de passar por essa fantástica experiência.